Olhares
Entry: Fazes-me falta... Monday, April 17, 2006



 

Trago-te no riso enterrado, nas lágrimas que me lançaste, escadas de incêndio para a sabedoria da felicidade, na pele escaldada pelo brilho da noite, depois do mar.

Vejo o vento, atiçando a alma das árvores, empurrando nuvens, lavando o céu - mas não o sinto. Tu encolhes o pescoço no casaco para te defenderes dele. Se ao menos eu pudesse dominá-lo, por um segundo que fosse, dar-lhe a forma dos meus dedos mortos e acariciar-te lentamente esses fios brancos, desordenados. Persigo-te para que o tempo exista. Porque andas, e olhas o céu, e o encontras às vezes negro, ou cintilando como um escuro mar de jóias, ou chuvoso, ou ressequido de sol, sei que os dias passam.

Mas sei cada vez menos. De repente, o passo torna-se-te elástico e és o meu primeiro namorado, de rabo de cavalo, procurando constelações novas num firmamento longínquo. Não consigo ver os contornos desse rapaz no tempo do meu amor por ele, de cabelo curto, e sempre vestido de preto. Mas acontece-me uma vertigem instantânea sobre os corpos amados, acontece-me ter-te diante de mim com o olhar, o gesto, o passo de outros que amei de outras maneiras. Ah, se esta vertigem me tivesse sido dada em vida, até onde eu poderia ter ido. Abre um livro, por favor.

Abre-me The End of the Affair do Graham Greene e lê-me aquela passagem em que os dois amantes se afastam depois do primeiro reencontro. Maurice larga a mão de Sarah e caminha para longe, sem virar a cabeça, como se tudo o que há de importante no mundo estivesse nesse outro lugar, inexistente, para onde os seus passes se dirigem. Mas Sarah tosse, e para combater o som cavo dessa tosse repetida ele tenta imaginar uma melodia que pudesse assobiar, mas não consegue. 'l have no ear for music', pensa Maurice, penso eu, agora, à beira das lágrimas que rodam por ti no gira-discos-compactos. 'People can love without seeing each other, can't they', perguntava Sarah, depois de ter desistido de ti para te salvar. Ou de Maurice, é a mesma coisa.

Podemos amar no escuro, sim, podemos amar na luz sonâmbulo da ausência, podemos tanto que inventávamos Deus. Tu dizias que Deus era o teu personagem de ficção favorito. Mas não querias entender que os personagens de ficção existem tanto como tu. Às vezes, muitas vezes, existem mais do que tu. Lê-me o fim da Ressurreição do Tolstoi, diz-me que a Maslova voltou a ser Katiucha, de vestido branco com uma fita azul, entre círios, na noite ardente dessa missa de Páscoa em que Nekliudov a amou na sua inamovível eternidade.

Lê-me os textos dessa Maria Zambrano que eu te ensinei a amar, diz-me que 'O coração é o vaso da dor' e entorna o teu sangue no meu coração morto que não consegue morrer. Ainda não aprendeste tudo, demorado amigo. Ainda não aprendeste a matar-me. Os outros arrumaram-me no cemitério luminoso dos telejornais, com loas à minha dignidade. Que a Fama lhes seja leve - cá estarei para lhes perdoar em paz esse minuto de glória. Fica tão bem no écran, a pena dos mortos. Porém, no fim desse breve espaço publicitário a que chama vida, todos virão aqui parar. O microfone em torno de ti: 'Sei que é um momento difícil, mas disseram me que era um dos seus melhores amigos'. Confirmaste: 'É por isso mesmo que não falo dela. Continuarei apenas a falar com ela'.

Inês Pedrosa in "Fazes-me Falta"

Espero que tenham tido uma excelente Páscoa e tão feliz quanto a minha! Beijos com carinho e boa semana!

   9 comments

Art Of Love
April 21, 2006   02:25 AM PDT
 
Doryanne,
Sempre tive curiosidade de ler alguma coisa de Inês Pedrosa, mas nunca o fiz, não sei bem porquê. Hoje depois de ler este texto que aqui publicas a minha curiosidade aumentou. Vou ter mesmo que ler.
Bjs.
digoeu
April 19, 2006   11:10 PM PDT
 
Gostei imenso do livro. "Nunca me cansei de ti; cansei-me apenas do teu cansaço de ti mesma" - Inês Pedrosa

Obrigada pela visita.
Amanda
April 19, 2006   09:08 PM PDT
 
nossa amiga lindo mesmo esse teu post fikei encantada. amiga do meu coração como sempre seu blog está um arrazo amo os posts e tudo mais
vim aki claro pq amo teu blog e te dxar um carinho adoro vc. Obrigada pela sua amizade q é mto importante pra mim.

"Palavras gentis podem ser curtas e fáceis de falar, mas os seus ecos são efetivamente infinitos ( Madre Tereza). "
Mestrinho
April 18, 2006   09:03 PM PDT
 
Lindo exorcismo de sentimentos. Pessoalmente não gosto muito da páscoa, vai-se lá saber porque... Mas passou-se
Bjos e boa semana
zaratrusta
April 17, 2006   11:48 PM PDT
 
realize o sonho
NameLuisa
April 17, 2006   09:45 PM PDT
 
Da Inês Pedrosa só conheço um livro de que não gostei muito...
Sophia
April 17, 2006   03:45 PM PDT
 
Fez-me bem ler este excerto hoje!
Grazie!

;) Baci e boa semana!
*Pedaço de Lua*
April 17, 2006   02:34 PM PDT
 
olá linda... bonitaaa passagem........ muitos beijos e uma óptima semana
Nekynho
April 17, 2006   10:05 AM PDT
 
Deixei aqui o meu olhar de olhos verdes, mas assim que puderes devolve-mo pois mais logo preciso dele para ir a um museu lol
Baci :o)

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